segunda-feira, 15 de março de 2010

UM TELEFONEMA

Ela acordou de repente, com sede. Levantou-se da cama lentamente, para não acordar o menino que dormia na cama acima da dela. Saiu do quarto e ganhou o corredor. Desceu as escadas e chegou à cozinha.

Por um momento, ela pensou em acender um cigarro, mas se lembrou que seu pai não gostava que ela fumasse dentro de casa. Um copo d´água, então. Sentou-se na bancada da cozinha, em silêncio, com as luzes apagadas.

Eram três horas da manhã. E, mesmo assim, o telefone tocou. Ela se levantou apressada e correu até o aparelho, que ficava em cima de um pequeno móvel na sala, perto das escadas.

- Alô?, ela disse. 

- Oi, disse uma voz masculina do outro lado da linha. Sou eu.

Silêncio.

- Eu reconheci sua voz, ela disse.

- Eu sei, ele respondeu. Que bom que ainda não se esqueceu de mim.

- Por que você está me ligando a essa hora? Continua inconveniente...

- Eu morri, ele a interrompeu, antes que ela começasse a desfiar a longa série de coisas horríveis que ela sempre lhe dizia nas poucas vezes em que se encontraram depois do fim do namoro.

- O quê?, ela disse.

- Faz meia hora. Um pouco mais, talvez. Em um hospital, depois de um acidente de carro. Eu morri. E você é a única pessoa com quem eu queria falar antes de...

Dessa vez, ela o interrompeu.

- Que brincadeira de retardado é essa? Por que você está fazendo isso?

Um longo silêncio do outro lado da linha. Ela sentiu frio.

- Eu só queria dizer que nunca deixei de amar você em todo esse tempo. Tentei, mas não consegui.  E eu sinto muito por ter sido um idiota tantas vezes. 

- Nós já falamos sobre isso... O nosso relacionamento acabou há muito tempo...

- Infelizmente, foi só o relacionamento que acabou. Eu ainda amo você. E acho que sempre vou sentir sua falta. Mas quero que você fique bem. Fico feliz que esteja indo bem no trabalho e todo o resto.

"Como ele sabe?", ela se perguntou. Mas não disse nada. Pelo contrário:

- Olha, por favor, não me procura mais.

Silêncio do outro lado da linha. Então, o som do telefone sendo desligado. Passavam apenas alguns minutos das três horas. O frio amenizou um pouco. Começara a chover do lado de fora.
Então, quando voltava para a cozinha, ela se lembrou dele. A sensação era um misto de raiva e tristeza. Sim, ele tinha sido um idiota. E ela não o deixara se esquecer disso nenhuma das vezes em que ele tentrara se reaproximar depois do rompimento.

Era impossível dizer uma palavra amiga, sequer.

Ela voltou ao quarto e, no escuro, conseguiu achar um cigarro na bolsa. Caminhou até a varanda do seu quarto e ficou lá, parada, só de pijama, olhando a chuva caindo.

A chuva abafava todos os sons que poderiam ter sido ouvidos naquele momento. 

CHE: MAIS DO MITO, MENOS DO HOMEM

Depois de uma longa enrolação, finalmente assisti a Che2: A Guerrilha, dirigido por Steven Soderbergh, sobre a vida do revolucionário e aspirante a santo cubano-argentino Ernesto "Che" Guevara. O filme tem em seu papel principal o ator Benicio Del Toro - em cartaz no cinema como o protagonista de Lobisomem.

O projeto de criar uma cinebiografica de Ernesto "Che" Guevara foi realizado com a produção de dois filmes, retratando sua participação no início da Revolução Cubana e sua morte na Bolívia.

 Cartaz de CHE

Não se trata de um filme ruim. Do ponto de vista técnico, Che é excelente, como a maioria dos filmes de Soderbergh. Os atores são ótimos e a reconstituição de época, bastante convincente.

O problema é que é um filme desonesto. Ou, melhor ainda, sua intenção, a de glorificar Guevara, é desonesta, já que os roteiristas optaram por pintar a imagem de um santo, e não a do homem como ele realmente foi.

Guevara segundo Korda

A cinebiografia de Che Guevara realizada por Soderbergh - que tem o mérito de ser a primeira grande produção a tratar da vida do revolucionário - foi dividida em duas partes.
No primeiro filme, o período retratado vai do primeiro encontro entre Guevara e o futuro ditador cubano, Fidel Castro, até a vitória das forças revolucionárias, o Movimento 16 de Julho (M16), contra o exército de Fulgêncio Batista, o predecessor de Castro no cargo de gendarme do povo cubano.

O segundo filme trata especificamente da trajetória de Guevara do momento em que parte de Cuba rumo à Bolívia, na tentativa de expandir o movimento revolucionário latino-americano, até sua morte, em 8 de outubro de 1967. 

Um dos problemas do filme de Soderbergh encontra-se justamente no período retratado, já que foi feita uma opção consciente de não abordar o período imediatamente posterior à revolução cubana, vitoriosa em janeiro de 1959. 

Mas a escolha de deixar esse período de lado é bastante compreensível, uma vez que é difícil pintar a imagem de santos revolucionários, tendo de mostrar uma série de julgamentos públicos e fuzilamentos. O processo de justiçamento de "inimigos da revolução", realizados por ridículos julgamentos públicos, durou meses e matou centenas de pessoas.

Outro lapso: Soderbergh não trata do período em que Guevara foi Ministro da Indústria de Cuba, época em que travou um sério debate com os revolucionários pró-soviéticos - que queriam simplesmente que Cuba fosse anexada ao bloco soviético como fornecedor de produtos agrícolas, como o açúcar, o que acabou acontecendo - e os da linha "chinesa", que defendiam um desenvolvimento autônomo para a ilha, com ênfase na reforma agrária e na industrialização de Cuba. 

Outro lapso: não há uma palavra no filme sobre o início da transformação da Revolução Cubana em uma ditadura comunista, processo culminado em 1962, quando Castro decidiu unificar todos os partidos socialistas no recém-criado Partido Comunista Cubano, tornando ilegais todas as outras organizações políticas existentes no país.

Mesmo no caso do segundo filme, que trata especificamente da campanha de Guevara na Bolívia, que fracassou basicamente porque os revoluionários, quase todos estrangeiros, não receberam o apoio da população local - inclusive do Partido Comunista boliviano - é baseada exclusivamente no diário que Guevara escreveu a respeito, sem utilizar a grande quantidade de material produzido por pesquisadores - tanto de direita como de esquerda - sobre a morte do revolucionário, realizada a pedido do governo norte-americano. 

Infelizmente, os produtores de Che optaram por colaborarem na construção do mito acerca de Ernesto "Che" Guevara, e perderam a oportunidade de retratar o homem que existiu por trás da lenda.

Um pouco mais do mito; um pouco menos do homem.

Paz e Bem!

ONTEM, NO CAMINHO

Na noite passada, quando ainda era domingo, voltei ao Caminho.

Para os leitores de primeira viagem, ou, ainda, para os de pouca memória, o Caminho da Graça é uma pequena comunidade cristã que frequento há quase dois anos. 

Ontem, voltei ao Caminho, mesmo sem nunca dele ter saído, depois do período imediatamente posterior ao meu acidente de carro. Ao todo, eu não aparecia já há três domingos.

Revi amigos, conversei com pessoas, tomei café e água. E ouvi o Carlos.

O Carlos é nosso pastor. Em uma primeira impressão, diante daquele homem de barbas e cabelos compridos, com seu colar do tao franciscano, a primeira impressão é a de que se trata de uma espécie de mistura alucinógena de profeta bíblico com guru hippie

Mas o Carlos é apenas nosso pastor, vocacionado para ajudar pessoas. E um homem inspirado.

Nessa noite, bastou ao Carlos um versículo da Bíblia para nos falar um pouco do cuidado de Deus por nossas vidas. Uma coincidência interessante, pois esse é um dos temas corriqueiros aqui deste blog, apesar das minhas ilimitadas limitações para escrever. 

O trecho em questão era o versículo sete do capítulo 45 do livro de Gênesis, o primeiro texto da Bíblia. Lê-se, retirado da Nova Versão Internacional (NVI):

"Mas Deus enviou-me à frente de vocês para lhes preservar um remanescente nesta terra e para salvar-lhes a vida com grande livramento". 

Algumas palavras sobre o contexto:

A citação é retirada da história de José, filho de Jacó, um dos patriarcas bíblicos. Desde jovem, José sempre demonstrou uma aptidão para a liderança, assim como um grande compromisso no seu relacionamento com Deus. Isso, somado a uma velada preferência de seu pai por ele, criou inveja em seus irmãos que, em uma oportunidade, tentaram matá-lo e, depois, vendê-lo como escravo.

Já escravo, José é vendido aos egípcios e vai ao Egito. Como parte da sua vida de oração, ele é capaz de interpretar sonhos e isso o torna um dos favoritos do faraó egípcio, após interpretar um sonho que anunciava um período de grande fome por toda aquela região. Impressionado, o faraó transforma José em administrador do Egito, responsável por armazenar provisões para o período de necessidade.

Inicia-se o período da grande fome, que atinge toda a região. Famintos, os irmãos de José são enviados ao Egito por seu pai, Jacó, para comprar alimentos. Lá, reencontram seu irmão, mas sem reconhecê-lo.

O texto citado pelo pastor diz respeito ao momento em que José se revela aos seus irmãos e os perdoa por todo o mal que lhe causaram, uma vez que suas ações, ao levá-lo ao Egito e tornando-o capaz de prever e preparar o país para a fome, acabaram salvando milhões de vidas.

"Mas Deus enviou-me à frente de vocês para lhes preservar um remanescente nesta terra e para salvar-lhes a vida com grande livramento".

Em sua exposição, Carlos defendeu a possibilidade de encararmos nossos problemas, nossas perdas, da mesma forma com que José as encarou. Como parte do cuidado de Deus por nossas vidas e pelas vidas dos outros. 

No Novo Testamento, o apóstolo Paulo, um dos meus heróis, afirma que todas as coisas, por piores que possam parecer à primeira vista, cooperam para o bem daqueles que amam a Deus.

O que isso significa? Simplesmente que, em uma concepção cristã da vida, que também existe em outras tradições religiosas, o Deus do Universo é também um Deus de Amor, que cuida e se importa com cada um de seus filhos. Daí, o seu cuidado por nossas vidas.

Sei que é difícil acreditar nisso no meio do redemoinho, mas esta é uma forma de encarar o desastre. Algo de bom surgirá de tudo isso, por mais irracional que acreditar nisso possa parecer. 

Pois, infelizmente, um dos ingredientes da fé verdadeira é nossa capacidade de confiar.

Paz e Bem!

domingo, 14 de março de 2010

EU, UM MALTRAPILHO!

Há alguns anos, em uma das minhas visitas a uma livaria especializada em artigos evangélicos no Centro de São Paulo, tive a sorte de fazer amizade com uma vendedora. Era uma senhora que gostava de conversar comigo sobre os livros que estava lendo; trocávamos impressões e comentários.

Em uma de minhas visitas, ela se virou e me perguntou:

- Thiago, você já leu algum livro do Brennan Manning?

- Quem?, eu perguntei.

- É um autor americano novo, que está começando a ter seus livros publicados no Brasil. 

- Não, eu não conheço.

Ela foi até uma das prateleiras da loja e voltou com um pequeno livro em suas mãos.

- Eu acabei de ler esse aqui. Garanto que você vai gostar, ela disse, enquanto me entregava o livro.

O título era O Evangelho Maltrapilho. Na contra-capa, um aviso aos possíveis leitores: 

"O Evangelho Maltrapilho foi escrito para pessoas aniquiladas, derrotadas e exauridas. Pessoas que se acham indignas de receber o amor de Deus. Quem sabe, ignoradas pela comunidade de cristãos por não se encaixarem no perfil de super-homem ou de supermulher que lhes é constantemente exigido. Pessoas cansadas da espiritualidade superficial e consumista. Pessoas que travam inúmeras batalhas interiores por não se sentirem parte de uma comunidade afetiva e acolhedora".

Parece familiar? Independentemente de sua opção religiosa - ou da ausência de uma definição a respeito - vocêr, leitor ou leitora, já se sentiu realmente aniquilado?

Eu, já...  Bom, nem preciso dizer aqui que comprei o livro na hora, né?


Li O Evangelho Maltrapilho em poucos dias e, em seguida, voltei à livraria, querendo saber se haviam outros livros do Sr. Manning publicados no Brasil. Para minha sorte, tinha, sim.

De lá pra cá, acredito ter lido tudo o que foi escrito por ele e publicado no Brasil. Faço parte de uma comunidade virtual sediada nos Estados Unidos de leitores que comentam sua obra. E, vez ou outra, penso em escrever um e-mail para o homem. 

Mais uma citação do livro: 

"O Evangelho Maltrapilho foi escrito com um público leitor específico em mente. Este livro não é para os superespirituais.
Não é para os cristãos musculosos que têm John Wayne como herói, e não a Jesus.
Não é para acadêmicos que aprisionam Jesus na torre de marfim da exegese.
Não é para gente barulhenta e bonachona que manipula o cristianismo a ponto de torná-lo um simples apelo ao emocionalismo.
Não é para os místicos de capuz que querem mágica na sua religião.
Não é para os cristãos "aleluia", que vivem apenas no alto da montanha e nunca visitaram o vale da desolação.
Não é para os destemidos que nunca derramaram lágrimas.
Não é para os zelotes ardentes que se gabam com o jovem rico dos Evangelhos: "Guardo todos esses mandamentos desde a minha juventude".
Não é para os complacentes, que ostentam sobre os ombros um sacolão de honras, diplomas e boas obras, crendo que efetivamente chegaram lá.
Não é para os legalistas, que preferem entregar o controle da alma a regras a viver em união com Jesus.
O Evangelho Maltrapilho foi escrito para os dilapidados, os derrotados e os exauridos".

Quanto a mim, sei que não cheguei lá e, frequentemente, visito o vale da desolação.

Infelizmente, a religião organizada tornou-se um produto, como tudo o mais nesse mundo cinza em que somos forçados a viver. Vamos à igreja, ao terreiro ou ao centro uma vez por semana e, durante duas horas, um pouco menos, talvez, somos espirituais. Nos dias da semana que sobram, ou seja, a semana inteira, somos iguaizinhos aos outros que não perdem tempo em templos religiosos.

Falhamos diairiamente em atingir um padrão moral ao qual nos forçamos a alcançar. E somos esmagados pela culpa ou pela atordoante sensação de fracasso, auto-infligidos, ou gentilmente impostos a nós por outras pessoas.

Em seus livros, Manning - um homem que também tropeçou, caiu e levantou um milhão de vezes - fala sobre o fato de que, apesar de mudanças e alterações de curso serem necessárias; afinal, não mudar é estar morto, nunca devemos nos esquecer do amor de Deus, que nos aceita como somos.

Brennan Manning

Eu sei que parece difícil acreditar nisso. Eu mesmo, quando digitava a penúltima frase, senti uma pontada de dúvida, uma irresistível tentação de perguntar "será mesmo? de verdade?".

Mas, felizmente, é, sim.

Há algum tempo, eu me defino como um cristão maltrapilho. O que isso significa? Apenas que, apesar das minhas tentativas de mudança - e elas são muitas, pode acreditar - sei que nunca vou ser perfeito. E sei do amor de Deus, apesar das minhas frequentes recaídas na dúvida e no cinismo.

Assim, não me preocupo em ser santo. Faço o melhor possível e, quando erro, todas as centenas de vezes ao dia, páro, penso, peço perdão, procuro arrumar as coisas e sigo em frente.

Escolhi um caminho sem culpas e sem neuroses. Nesse Caminho, preciso de honestidade para encarar minhas derrapadas, e de disposição para seguir em frente.

Paz e Bem!

FRANCISCO E CHARLES: SERVIÇO E CONFIANÇA

Nas postagens anteriores, incluí duas orações famosas atribuídas a homens que entraram para a História pela intensidade com que buscaram relacionar-se com Deus. A primeira oração é atribuída a Francisco de Assis; a segunda, a Charles de Foucauld.

Em termos gerais, acredito que as duas orações refletem dois dos principais aspectos, ou melhor, características de comprometimento com o discipulado cristão, ou seja, com a tentativa de imitar a Cristo em nossas vidas.
A primeira dessas características aparece na oração de Charles de Foucauld e pode ser compreendida como a completa entrega de nossa vida, nossos desejos e sonhos, assim como nossos problemas e angústias, a Deus.

 Charles de Foucauld

Compreendo a dificuldade que enfrentamos em exercitar uma confiança cega em Deus, uma vez que, na verdade, não queremos que Deus realize a sua vontade em nossas vidas. No fundo, o que queremos é que Deus deseje para nós exatamente aquilo que queremos para nós mesmos.

Assim, ao invés do famoso "seja feita a tua vontade", a realidade é "seja feita a tua vontade, desde que ela espelhe a minha vontade".

Acredito que o principal problema nisso é que a minha vontade, ou melhor, os meus desejos, refletem apenas o meu estado mental no momento em que essas vontrades surgem. Isso significa que os meus desejos estão manchados por confusão, pressa e a agitação cotidiana a que todos estamos submetidos nos dias de hoje.

A verdade é que, para ser honesto, nem mesmo eu sei o que quero. As vontades flutuam segundo o meu estado de espírito, e as coisas que desejo mudam constantemente. 

Desta forma, submeter os meus desejos à vontade de Deus, que é sempre o mesmo e permanece inalterado, parece um exercício quase impossível, além de doloroso, principalmente quando Deus se recusa a agir como uma espécie de gênio da lâmpada.

Daí, a necessidade da confiança cega na bondade e no amor de Deus.

A oração de Francisco de Assis reflete a segunda principal caracterítica necessária à imitação de Cristo: o compromisso com o serviço ao próximo, a ponto de que este serviço signifique o auto-sacrifício.

 Francisco de Assis, por El Greco

Não se trata da realização de obras de caridade ou de trabalho voluntário em uma entidade que ofereça sopão ao pobres. Trata-se de um compromisso pessoal com o serviço ao próximo, seja ele quem for. 
Pessoalmente, não realizo trabalhos voluntários com a frequência que gostaria, mas procuro estar disponível a amigos e desconhecidos e tento ajudá-los em suas necessidades, apesar das minhas falhas e ausências, inclusive com amigos queridos. 

De que forma isso se traduz na prática do dia a dia? Em um gesto, um abraço, uma palavra, um e-mail ou uma caminhada junto com alguém que tem um problema ou simplesmente deseja desabafar um pouco.

Em geral, o serviço se traduz em um exercício de estar permanente atento e disponível a ouvir outras pessoas, o que só pode ser feito com o crescente abandono do foco de atenção em minhas próprias necessidades pessoais, sejam elas reais ou fictícias.

Serviço e Confiança são as duas formas com que se pode imitar a Cristo, e esta deveria ser a meta de todos aqueles que se auto-definem como "cristãos".

Paz e Bem!
ORAÇÃO DE FRANCISCO DE ASSIS

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois, é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna.
ORAÇÃO DE CHARLES DE FOUCAULD

Meu Pai, em me entrego em tuas mãos; meu Pai, confio-te a ti; meu Pai, em me abandono em ti; meu pai Pai, faz de mim aquilo que quiseres; o que quer que faças a mim, eu te agradeço; obrigado por tudo; estou pronto a tudo; aceito tudo; eu te agradeço; obrigado por tudo; estou pronto a tudo; aceito tudo; agradeço-te por tudo. Desde que se faça a tua vontade em todas as criaturas, em todos os teus filhos, em todos aqueles que teu coração ama, nada mais desejo, meu Deus; entrego minha alma em tuas mãos, eu a dou, meu Deus, com todo o amor do meu coração, porque te amo e porque me dar e uma necessidade de amor, colocar-me sem medida entre tuas mãos com uma infinita confiança, pois tu és meu Pai.

sábado, 13 de março de 2010

O HORROR, O HORROR

Desde criança, gosto de filmes de horror. Como qualquer fã que se preze, tenho meus filmes favoritos no gênero, assim como gosto muito de ter alguns tipos de filmes de terror preferidos.

Um exemplo: adoro filmes sobre vampiros e sobre zumbis. Tenho um tremendo carinho por clássicos imortais como "A Hora do Espanto", "Entrevista com o Vampiro", "A Noite dos Mortos-Vivos" e "Madrugada dos Mortos", por exemplo. 

Gosto dos filmes de horror em que o sangue rola solto, como os da série "Hellraiser", mas também sou fã de filmes terror-cabeça como "Os Outros" e "O Iluminado".

Recentemente, adquiri o vício de assistir o seriado de TV "Supernatural", onde dois irmãos, os sensacionais Sam e Dean, encaram todo o tipo de bichinho maldoso que se esconde nas sombras.

    Os irmãos da série de TV Supernatural

Gosto de livros - romances e contos - de horror, sendo que autores como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Stephen King fizeram grandes estragos à minha massa encefálica. 

Gosto de histórias em quadrinhos de horror, mesmo tendo de reconhecer que, nessa área, o gênero ainda não atingiu o seu auge, com algumas notáveis exceções. 

E qual é o fascínio do gênero?

Bom, mesmo sem ser crítico literário, mas apenas um leigo no assunto, vou arriscar alguns palpites pouco fundamentados...

O gênero horror, seja na literatura ou nas artes modernas, como o cinema e as histórias em quadrinhos, tem um fascínio incrível pois nos força a confrontar o medo essencial que se esconde em todo o coração humano: o medo da morte. 

O medo da morte se manifesta de várias formas diferentes, e varia de pessoa para pessoa. Vai doer? Vai ser rápido? Vai ser lento? Vou morrer dormindo? Vou morrer num acidente? Em um assalto? Estraçalhado por hienas famintas?

Outra forma do assunto nos apavorar diz respeito à questão do que existe depois da morte? Essa resposta, todos nós já a temos, independente de credo religioso ou opinião pessoal: nós não sabemos o que acontece depois da morte. 

Assim, as várias visões diferentes sobre o assunto oferecidas pelos autores de histórias de horror são fascinantes. Céu? Inferno? Gasparzinho? Ou algo pior, de que nem sequer ouvimos falar?

    Pinhead, da série Hellraiser

Para mim, o principal apelo das histórias de horror se esconde em sua incrível capacidade de nos oferecer análises interessantes sobre a vida humana e sobre a sociedade em geral. 

Nos filmes de zumbis, por exemplo (um dos meus subgêneros favoritos na área), normalmente acontece o seguinte: os mortos voltam à vida e, privados de inteligência ou qualquer resquício de humanidade, passam a atacar os vivos. Uma vez atacado por um zumbi, você e eu nos tornamos zumbis também. 

         Madrugada dos Mortos

Ou seja, o mundo é tomado por uma verdadeira epidemia de cadáveres ambulantes, transformados em assassinos. 

Nesses filmes, invariavelmente, a sociedade organizada deixa de existir em pouco tempo e somos tomados pelo simples instinto de sobrevivência.

O problema é que, se vivemos apenas para sobreviver, e descartamos aspectos como moralidade e compaixão, por exemplo, a coisa fica feia. 

Nos filmes de zumbi do sensacional George Romero - grande inventor do gênero - é fácil perceber o debate sobre classes sociais, racismo e machismo por debaixo da luta desesperada entre os vivos e os mortos. 

Nos filmes de vampiro, temos o outro lado da moeda. Os vampiros são imortais, desde que se alimentem de sangue humano eternamente. 

          Visão Parcial do Cartaz de Drácula de Bram Stoker

Em "A Hora do Espanto" (Fright Night, no original), clássico de 1985, que mistura comédia e horror, um rapaz descobre que o novo morador da casa ao lado é um vampiro e que ele está matando várias moças na cidade.

Em "Entrevista com o Vampiro" (Interview with the Vampire), da década de 90, vemos o fardo da imortalidade na vida dos vampiros Louis e Lestat. 

     Entrevista com o Vampiro

Os filmes de vampiros abordam a questão da imortalidade, e sua impossibilidade, ao mesmo tempo em que lidam com a questão da sexualidade. Normalmente, os vampiros são apresentados como sedutores e irresistíveis e o próprio ato essencial para sua sobrevivência, ou seja, sugar o sangue das vítimas, possui evidentes conotações sexuais.

    O novo Lobisomem

Outros clássicos do gênero podem ser interpretados como estudos metafóricos sobre a condição humana: Frankenstein, de Mary Shelley, escrito na segunda metade do século XIX, é uma alegoria sobre o progresso técnico da humanidade, sem ser acompanhado por um equivalente progresso moral, o que gera aberrações.

Qualquer pessoa com o mínimo poder de observação percebe que esse receio da escritora se concretizou em um mundo que produz alimentos suficientes para alimentar toda a humanidade; mas, no entanto, mais de um bilhão de pessoas passam fome todos os dias.

O mito do lobisomem trabalha a questão do duelo entre razão e irracionalidade, travado em cada ser humano. E sobre os perigos do nosso lado animal conseguir sobrepujar nossa humanidade.

Assim, em última análise, é possível defender a tese de que os filmes de horror - assim como os contos e HQs do gênero, tratam-se, na verdade, de metáforas sobre a condição humana e, por isso, mantém seu interesse permanente.

Paz e Bem!

sexta-feira, 12 de março de 2010

PONTO DE VIRADA

Nos filmes e nos romances, sempre existe o famoso "ponto de virada" dos personagens, em que tudo muda. É o momento, na história, em que alguém percebe que a sua forma de ver a vida já não se adequa mais à própria vida, essa coisa misteriosa que não se importa muito com as nossas idéias e concepções a seu respeito.

Um exemplo: no maravilhoso filme alemão "A Vida dos Outros" (Das Leben der Anderen), produção de 2006, a personagem principal, um policial da Stasi  (a polícia política da ex-Alemanha Oriental comunista) chamado Wiesler, encarregado de monitorar a vida de um escritor, tem seu "ponto de virada" quando o seu espionado recebe a notícia da morte de um amigo, que havia cometido suicídio. É uma cena maravilhosa.

A Vida dos Outros

Daquele momento em diante, Wiesler já não pode mais acreditar no sistema em que vive, no seu trabalho e no próprio "socialismo" imposto em seu país. 

E então, ele passa a ajudar o escritor a encobrir suas atividades anti-Estado. O interessante é que os dois, o espionado e o espião, nunca chegam a se conhecer.

O que estou tentando dizer é que a vida nos prega peças. E, depois desses momentos, algumas coisas mudam dentro de nós. É claro que essas mudanças podem ser para melhor, mas também podem ser para pior. Tudo depende dos olhos de quem vê. 
Como escrevi na postagem anterior, eu tive um acidente de carro grave há alguns dias. E saí dele inteiro, apesar das probabilidades terem estado contra mim. 
Prefiro pensar que não tive sorte, pois não acredito em coincidências ou acaso. 

O acidente foi meu ponto de virada. E agora, quando penso a respeito, eu tento me decidir sobre o que fazer sobre isso. 

Sei que não posso mudar o mundo. Mas também sei que posso dar um sentido diferente às minhas ações e, com isso, mudar o meu mundo e, talvez, com um pouco de sorte e um pouco de amor, mudar um pouquinho a vida das pessoas com quem tenho contato, sejam eles amigos ou simplesmente conhecidos.

Posso mudar o mundo de algumas pessoas com atitudes simples: um sorriso, um abraço, um beijo e uma palavra amiga. 

Então, meu ponto de virada, seja ele coincidência ou acaso, ou destino, ou o que for, terá um sentido especial, o sentido de algo que tenha valido a pena.

Paz e Bem!

quinta-feira, 11 de março de 2010

E, NO MEIO DO CAMINHO, HAVIA UM GATO PRETO

Há pouco mais de duas semanas, sofri um acidente de carro bastante grave. Fui pego por um ônibus  da Viação Gato Preto (é lógico!) em um cruzamento (ou encruzilhada, se você é um bichinho supersiticioso, caro leitor), quando seu motorista tentava uma intrépida manobra: atravessar o sinal vermelho em uma esquina do bairro do Ipiranga.

Infelizmente, eu o vi tarde demais; e ele não conseguiu parar. 

O ônibus atingiu meu carro do lado do passageiro e me arrastou por cerca de meia quadra. Resultados: o carro e o ônibus foram destruídos, assim como um árvore e um poste de energia. 

No meu corpo, os resultados foram mais interessantes: uma costela quebrada, ferimentos na cintura, cortes e hematomas. E três dias internado em um hospital, incapaz de me mover. E dez dias em Santos, em recuperação.

O acidente aconteceu em uma segunda-feira, por volta das 22h30,  quinze minutos depois de eu ter saído da escola em que trabalho, que fica no Ipiranga.

Não, eu não estava alterado.

Segundo meu pai, que teve a bondade de vir me ajudar no hospital, eu poderia ter morrido e deveria ser grato por ter escapado sem sequelas.
Na verdade, a única sequela foi a perda do carro - que tem seguro - e a dor constante, que diminuiu agora, mas continua, intrépida.

Mas ele tem razão, o meu pai. Se o ônibus tivesse se chocado contra o lado do motorista, eu teria morrido. Se eu estivesse sem cinto, teria morrido.

Desta forma, provavelmente, também devo concordar com mais isso: eu deveria estar agradecido.

E estou. Estou arrebentado e dolorido, inchado e roxo, mas estou agradecido. Tenho mais uma chance, uma prorrogação, e pretendo usar isso direito.

Mas está tudo bem.

Agradeço aos meus amigos que se preocuparam e me ligaram e me procuraram. Obrigado pelo seu carinho. E pela sua insistência em me fazer dar risada, apesar de que até para respirar estava doendo. 

Meu agradecimento a vocês todos, de coração.

Aproveitei o tempo de molho para ler que nem um condenado, ver filmes e me inteirar sobre as aventuras dos irmãos Sam e Dean, da série de TV Supernatural (Sobrenatural). Bem legal. 

Hoje, quarta-feira, voltei ao trabalho e, na semana que vem, volto ao Mestrado.

Paz e Bem!